domingo, novembro 25, 2007

Avoar no Armazém

"Por mim não, borboleta, você pode avoar".
Impossível não sair cantarolando esse já clássico refrão depois de assistir Avoar, cuja montagem comemorativa (20 anos de estréia da encenação do querido diretor pernambucano José Manoel) estreou ontem no Teatro Armazém. Escrita por Vladimir Capella, reúne em cena, mais uma vez, Carlos Lira, Célio Pontes, Cira Ramos, Flávio Santos, Ivone Cordeiro, Otacílio Jr. e Rudimar Constâncio. Sim, quase todos os integrantes do elenco original voltaram ao palco para reviver os papéis que fizeram há duas décadas. Digo quase, porque Paulo de Pontes e Kátia Cris não puderam participar por que hoje moram longe do Recife (no lugar deles, Daniela Travassos), Paulinho em Sampa e Kátia em Cajazeiras (PB).

Mais atual do que quando estreou (há vinte anos Recife não era tão violenta quanto hoje), a peça fala da possibilidade de se abandonar o individualismo sombrio e introspectivo a que parece nos induzir a vida nas metrópoles. Avoar rememora o gosto pelo brincar puro e simples, que já nasce conosco e não custa nada - mas pode ser esquecido, sufocado nos labirintos de concreto, medo e solidão. Bom registrar que esse espetáculo, pela sua poesia, beleza, força e simplicidade, marcou meus primeiros anos como ator - nunca tinha chorado de emoção numa peça infantil até assistir Avoar. Se os anos não parecem ter passado para o elenco, a montagem está enxuta, vívida, segura, apesar de sofrer com a atual precariedade das instalações do Armazém, o maior e mais importante teatro alternativo do Recife. E me pergunto o que está acontecendo ali? Onde está o apoio àquela mulher batalhadora, a atriz e produtora Paula de Renor, que criou e manteve por tanto tempo esta sala de espetáculos que, infelizmente, hoje parece parada no tempo no espaço?

Morei dois anos na Bahia e me chamou a atenção a discrepância entre os teatros recifenses e a estrutura teatral que Salvador tem hoje. Comparados com as salas de espetáculo de lá - numerosas, bem cuidadas e equipadas - os nossos poucos teatros de médio porte chegam a fazer vergonha. Em Salvador existem pelo menos dois complexos culturais ligados à cena, como o Teatro Vila Velha e o Teatro XVIII, com espaços múltiplos, sempre lotados, programação intensa (espetáculos, cursos, oficinas, grupos residentes) e bem divulgada o ano todo. Salvador tem várias salas de formatos e tamanhos variados espalhadas pela cidade, como as do SESC, SESI, ACBEU, ICBA, Xisto Bahia, Aliança Francesa e o recentemente inaugurado Teatro Martim Gonçalves (UFBA), dentre outras tantas, incluindo (ótimos) teatros de grandes escolas e universidades particulares.

O fato é que é preciso lembrar sempre que Teatro não pode dar o mesmo tipo de lucro que outras atividades artísticas. O lucro do teatro - incalculável, diga-se de passagem - se reflete na dinâmica da construção de cidadãos e no fortalecimento de nossa identidade enquanto povo. Um povo que se crê fraco não tem força para sonhar e realizar alto, fica só na falácia, na hipocrisia, corrompe-se com facilidade, morre em vida. Para evitar tudo isso, qualquer investimento para se apoiar o Teatro vale a pena, desde que se saiba o que realmente se quer de um povo. Já não chega dessa agonia? Se nosso empenho diário enquanto artistas nunca terá fim, isso não impede que tentemos achar modos de reconquistar público, políticos e empresários, cutucar esse povo mortificado e iludido com tanta aparência vazia, sair da dor que não nos pertence e fazer festa. Enfim, reaprender a avoar.





















































9 comentários:

fatimaccorreia@hotmail.com disse...

Olá, Felipe, concordo plenamente com seu comentário a respeito da situação de nossos teatros, acho de suma importância este seu grito de apoio a esta casa de espetáculo Armazém, a luta de Paula de Renor em mantê-la aberta, apesar de todas as dificuldades.
O que fazer? Persistir e lutar!

Anônimo disse...

Beleza Felipe, concordo com tudo que você escreveu, porém tenho a sensação que o Armazém teve bons investimentos ou incentivo para melhorar, não sei o motivo concreto para ele está tão descuidado como agora. Quanto a Avoar, entramos no projeto com garra e estamos presenciando muito rapidamente o seu retorno ao ver o público emocionado com a encenação o espetáculo do domingo foi o espelho disso. Por fim, adorei as fotos, como podemos fazer para utiliza-las pela produção?
Grato
Amaro Filho
Página 21 - 34217180

Felipe disse...

Massa, Fátima.
Porque a tentação da acomodação é muito grande. Tens razão. Persistência é uma palavra chave pra lidar com esta situação. Para todos nós.
Abraço

Felipe disse...

Não sei detalhes sobre a situação do Armazém, Amaro. Apenas ouço amigos se queixando de que as condições atuais daquele Teatro não são as mesmas de outras épocas. Como sei que Paula é uma batalhadora, deduzi que não era opção dela deixar sem soluções eventuais problemas daquele espaço que ela criou com o maior carinho. Mas reconheço que esse assunto é bem complexo. Me falaram que querem revitalizar aqueles prédios, construir um teatro equipado... e Paula? E o potencial dela? Será que ela vai ser deixada de fora? Nâo há como aproveitar o tanto que já se viveu no Armazém? Vai-se, simplesmente, "desligar" esse "motor-de-viabilizar-coisas-teatrais" assim como já aconteceu com outros motores que foram "desligados" nesta terra, como os Cursos da UFPE e da Fundaj?

Quanto a Avoar, parabéns pela bela produção, Amaro. Quanto às fotos, falarei com José Manoel para que cheguem até você.

Abraço

Anônimo disse...

Felipe podes mandar as fotos para o amarofilho@pagina21.com.br ou rafael@pagina21.com.br terei todo o cuidado de creditá-las.
Grato
Amaro

Ana disse...

É impressionante... Tanto talento, tanta criatividade e tão poucos espaços...
Oa teatros e cinemas - pelo menos aqui, em satoleP - dando lugar a supermercados e igrejas...

Um dia isto vai mudar, né, Lipe?

Parabéns pelo teu talento e empenho!

Felipe disse...

Tomara que mude, Ana.
Acho até que já está mudando, as pessoas estão se ligando, buscando saídas, conversando umas com as outras sobre isso. Vivemos tempos estranhos, mas, como já ouvi de ti mesma, coisas bacanas também surgem na paisagem. Pensar nisso fortalece a gente. :)

isa disse...

lindo felipe! adorei! postei um trecho no meu blog, tudo bem? beijos!

Felipe disse...

Muito lindo, Isa!
Fui lá e gostei. Não me lembrava de que também havia borboletas nos caminhos do teu coração.
Bjão